Um parágrafo é progresso
e um livro surpreendente
Escrever dói
Há dias raros em que só escrevo um parágrafo. Os criadores de conteúdo viral diriam: “e está tudo bem”. Está mesmo. É legítimo faltar a energia ou a motivação quando a vida se intromete. Um novo olhar sobre estes dias, que considerava um falhanço, fez toda a diferença no meu processo criativo. Para melhor.
Um dia sem escrever uma página inteira não é um fracasso. Um parágrafo escrito num dia difícil vale mais do que cinco páginas escritas num dia bom. Quando custa, mas estás lá, percebes que escrever num dia pesado separa quem escreve de quem quer escrever. Além disso, produtividade é diferente de progresso, e progresso, mesmo quando se avança um parágrafo, não deixa de o ser.
A ideia de que o escritor deve obedecer a um determinado volume de produção diária e a uma disciplina de horário pode condenar a consistência. Clarice Lispector fazia questão de ser uma escritora amadora, livre. A disciplina tem formas muito diferentes das que aparecem nos manuais de produtividade.
Se nas mentorias um escritor me confessa que guarda a escrita para quando estiver pronto, inspirado ou com tempo, o caso muda. Deixar o livro parado à espera de um dia que quase nunca chega é um erro. Mas isto também se trabalha, com prazos, sim, mas sem pressão.
(Apenas) um parágrafo num dia mau é uma decisão. Deves escrevê-lo, mesmo que amanhã o apagues… ou o melhores.
Parei aqui
perfeito adejar da borboleta
efeito furacão
sobre o planeta
– Cöbramor, Antes que Gaia Caia
Comecei a ler Antes que Gaia Caia, do Cöbramor. Um poema longo em três movimentos — Vacuidade, Caos e Aniquilação — sobre a origem, a transformação e a devastação do mundo. O tema e a construção são ambiciosos, mas o que realmente me surpreendeu foi a forma.
Os espaços em branco, a variação dos tamanhos e tipos de fonte e a distribuição dos versos no papel agarram-me tanto como as palavras.
A poesia experimental é muitas vezes hermética, exige um nível de interpretação que o leitor comum não tem. Este livro contraria esse pressuposto sem sacrificar a voz e o estilo.
Gostei de ser surpreendida por uma escolha formal incomum que me obrigou a repensar a minha própria escrita.
Leva o caderno
O Narrador como Arma Narrativa é uma sessão online sobre as decisões do narrador em cada cena: o que revela ou retém e como essas escolhas influenciam a tensão.
Ainda há algumas vagas. Traz um excerto de um original, uma cena em que te parece que algo não resulta.
19 de junho · 19h30 · Online · 47€
E se não falhas uma visita à Feira do Livro de Lisboa, o Frederico d’Orey e a Joana Rocha vão lá estar a autografar os seus livros.
Toma nota:
A Joana Rocha estará a autografar A Vida das Peles no dia 29 de maio às 19:00, no pavilhão da Urutau (H38).
O Frederico d’Orey estará a autografar Nascido de Ninguém e Se Disser a Verdade, Estarei a Mentir-te no dia 31 de maio às 18:00, no pavilhão da Guerra & Paz (B29).
Não te esqueças
A 4.ª edição do Prémio Literário Henrique Lamas já está a receber submissões. Se tens contos ou poemas inéditos, pede-me o regulamento (residentes, trabalhadores, estudantes ou atletas no concelho de Vila Franca de Xira).
Abraço,
Lara




Escrever no papel é um ato de resistência. Resistir contra o corpo, a mente, o tempo... Mas o escritor escreve o tempo todo como disse Umberto Eco no livro CONFISSÕES DE UM JOVEM ROMANCISTA, "nos anos de escrita passa numa espécie de castelo encantado - ou, se preferirem, num estado de recolhimento autístico, porque está sempre focado em capturar ideias, imagens e palavras para a minha história." É uma espécie de gestação literária, segundo o autor, nos anos que escrevia um romance.