Sorte grande, um adeus e uma pergunta respondida
A manhã chegou com a notícia de que uma das primeiras autoras que acompanhei ganhou um prémio literário. Fiquei em silêncio, recostada na cadeira de trabalho, com aquele sorriso parvo de quem adivinhou a sorte grande. O tanto que tem acontecido de bom, e que quero partilhar convosco:
1. Dois autores que acompanho, e que lançaram recentemente os seus livros, têm andado num afã de apresentações e mesas por este país fora. Vou assistindo do lado de cá, gosto do meu lugar discreto, mas sempre a rebentar de orgulho.
2. Deixei cair o meu primeiro romance, já em fase de reescrita. Não doeu. Nada. Depois de cortes de capítulos, cenas e parágrafos, concluí que o manuscrito nascera para ser exercício. Como continuo sem pressa, arrumei o assunto. Ontem li uma publicação de uma autora aceite na Penguin que garantia ter falhado nos seus três primeiros romances. É raro alguém confessar isto.
3. Mas não parei, porque eu gosto é de escrever. Lancei-me a mais exercícios sob a forma de contos, sem pressão. Quando nos libertamos da ideia de publicar, acontece magia. Pelo menos comigo. Soltei os dedos e, agora sim, parece haver rumo, não certeza.
4. Atrevi-me a enviar alguns contos, os mais compostinhos, a leitores beta. Encontrar leitores de teste é sempre difícil para mim, tenho relação profissional com a maioria dos escritores ou leitores a quem poderia recorrer. Prefiro manter cada coisa no seu lugar. A Laura Vasques de Sousa ofereceu-se, muito amavelmente, para o cargo, e sei que posso confiar na sua análise.
5. Estou a ler dois livros ao mesmo tempo, um deles é precisamente o romance de estreia da Laura. Sou dessas malabaristas. Pudesse Ser Noite a Vida Inteira estava na minha pilha de não lidos há algumas semanas, e A Mulher Suspensa, de Annie Ernaux, tem de ser devolvido à biblioteca dentro de três dias. Isto não mereceria nota se eu não me visse, na maioria das vezes, a escolher o livro da Laura quando tenho de optar entre os dois. A minha escolha não tem a ver com qualidade, tem a ver com isto: o livro de Annie Ernaux, de memórias, vive muito da voz e de um estilo já consolidados; o livro da Laura Vasques de Sousa procura esse caminho com naturalidade, e a história colou-se-me como uma bizarria deliciosa; as suas personagens excêntricas andam sempre comigo.
6. Isto obrigou-me a refletir sobre a minha tendência niilista quanto ao meu futuro enquanto escritora, porque, se por um lado não faço questão de publicar antes dos sessenta (não conto com os meus livros infantojuvenis), por outro, há uma pergunta que não me larga: se não é para chegar ao nível dos grandes, vale a pena? Esta experiência não me deu a resposta, vaporizou a pergunta. Obrigada, Laura, com a convicção de que chegarás onde mereces.
7. Quase a terminar, mais uma nova: fui aceite na Bolsa de Formadores do INA, que qualifica e capacita quadros da Administração Pública. Confesso que sinto falta das ações presenciais, estou ansiosa pelo que me espera.
8. Enquanto me mantenho no ecossistema digital, partilho que em breve serão nove os escritores na mentoria. Abri recentemente uma vaga que não chegou a respirar fundo. Alegra-me a confiança no meu trabalho, além de já conhecer a belíssima escrita da I.
A propósito, por curiosidade, deixo os resultados da sondagem que publiquei há dias.
Se pertences aos 82% que escrevem, tenho vagas abertas para a imersão, de um dia, Escrever Ficção de A a Z, com early bird até 5 de agosto ou para as primeiras 5 vagas — conforme o que acontecer primeiro. É o tipo de ação que só tenho feito uma vez por ano, por isso, se te interessa, segura aqui o teu lugar.
Mesmo que ainda não tenhas decidido avançar, gostaria muito de saber como vai a tua escrita. Podes responder a esta publicação ou enviar e-mail.
Abraço,
Lara




