O narrador especulador
Coetzee, escolhas de narrador e um prémio literário a aceitar submissões.
Escrever dói
Estou a terminar a leitura da trilogia de Jesus, de Coetzee. Alguns parágrafos são tão precisos que me obrigam a parar para desmontar a técnica.
Presa ao último livro há mais tempo do que previa. É o que contece quando leio com o caderno ao lado.
Parei aqui
O señor Arroyo, mestre de música e diretor da Academia de Dança: não era assim que ele esperava conhecê-lo, nu. Um homem robusto, não corpulento, não propriamente, mas que já não é novo: a pele, no pescoço, no peito e na barriga, já começou a descair. A sua tez, toda a tez do corpo, mesmo da cabeça calva, é de um vermelho-tijolo uniforme, como se o sol fosse o seu elemento natural. Deve ter sido ideia dele, esta excursão à praia.
– J. M. Coetzee, Jesus na Escola
A primeira frase apresenta a personagem com título e cargo para logo a subverter com uma só palavra: nu. Construí a figura em meio segundo, para Coetzee a desfazer na mesma linha. Algo que parece simples, mas é genial.
Depois vem a descrição do corpo, cirúrgica, até ligeiramente cruel, que diz mais sobre quem narra do que sobre a personagem. O narrador não é neutro, e Coetzee prova-o pela escolha do detalhe físico.
A última frase, aparentemente banal, foi a que mais me interessou tecnicamente: “Deve ter sido ideia dele, esta excursão à praia.” O narrador especula. Depois de uma descrição que parece omnisciente, Coetzee limita o acesso. O narrador parece saber o suficiente para descrever com precisão, mas não tudo.
Assim funciona a gestão de informação narrativa. A tensão (ou microtensão) pode ser construída também pelo narrador, não estar apenas presa ao enredo.
Caso sério
Esta semana troquei emails com uma escritora sobre a escolha do narrador. Já tinha desenvolvido a história, mas continuava com dúvidas sobre o ponto de vista. Sugeri-lhe um teste simples: reescrever uma cena com narradores diferentes.
No caso dela, a primeira intuição confirmou-se acertada e não teve de fazer alterações de fundo ao manuscrito. Mas o exercício não foi inútil, ficou a perceber porque é que aquele narrador era a escolha certa, e isso é aprendizagem.
A escolha do narrador é um dos momentos mais debatidos nas mentorias. A decisão afeta tudo o resto e pode elevar ou arruinar a história, ou até custar meses de reescrita.
Hoje, Dia Mundial da Língua Portuguesa, é uma boa altura para lembrar que a língua também é uma decisão narrativa.
Leva o caderno
Abri as inscrições para a primeira oficina do ciclo A Anatomia da Tensão.
A sessão O Narrador Como Arma Narrativa acontece no dia 20 de junho às 19:30, online. O valor de participação é de 47€ e há apenas dez vagas. Vamos perceber se o teu narrador está a trabalhar contra ou a favor da história.
Leva um excerto original de até 300 palavras
Há também vagas no Laboratório de Escrita, para não mentorados — 40€/mês, duas sessões mensais, prática e leitura orientadas. Este é um espaço regular para escreveres com feedback.
Um prémio a não perder
A 4.ª edição do Prémio Literário Henrique Lamas está a aceitar submissões. Tenho o gosto de integrar o júri deste ano. Se tens contos ou poemas inéditos, pede-me o regulamento (residentes, trabalhadores, estudantes ou atletas no concelho de Vila Franca de Xira).
Abraço,
Lara



Lara, és uma mentora excepcional. Muito obrigada. Beijinhos