Como não pensar em publicar te ajuda a escrever melhor
Vou dar-te um conselho: enquanto desenvolves o teu manuscrito, não penses em editoras, contratos, capas, lançamentos ou publicações. Pensa só na história.
Talvez te pareça um conselho estranho, sobretudo porque vivemos numa altura em que sentimos a necessidade de antecipar cenários e procuramos validação constante. Ainda nem terminámos o terceiro capítulo e já estamos ansiosos para que alguém nos explique como contactar editoras. Ainda não terminámos um conto e já nos distraímos com um vídeo sobre branding para escritores.
É fácil levar esta dispersão connosco para a secretária. Apagamos uma frase porque “um editor talvez não goste” ou simplificamos uma personagem porque achamos que será mais fácil para o editor decifrá-la. Escolhemos um caminho menos arriscado porque parece mais publicável. Mas, muitas vezes, nessa fase, ainda não sabemos para onde vai a história, nem se aquela é a nossa voz genuína ou se a construímos para agradar.
Nas mentorias, os escritores perguntam-me frequentemente qual é a melhor editora para um manuscrito que ainda está a meio. Outras vezes querem saber se determinada história terá mercado quando ainda falta descobrir qual é o verdadeiro conflito do protagonista. Respondo, mas penso, para mim, que primeiro é preciso escrever o livro, com tudo o que isso implica (incluindo uma dose generosa de incerteza).
Há capítulos que acabam no lixo, personagens que desaparecem. Ideias que pareciam brilhantes e deixam de o ser após duas leituras. Faz parte. Quando a ideia de publicar ocupa demasiado espaço, a pressão cresce e a liberdade criativa encolhe-se, porque começamos a vigiar cada decisão. Cada página parece um exame. A escrita mais ponderada é, paradoxalmente, pior.
Os manuscritos que mais gosto de ler têm quase sempre problemas de estrutura, frases por polir ou cenas redundantes, mas sinto que alguém escreveu aquela história porque precisava de a escrever e não porque pensou no que um editor aceitaria.
Nos próximos meses voltarei a lembrar-me disto quase todos os dias. Em breve, começo a receber os textos do Prémio Literário Henrique Lamas para avaliação, o que se traduz em muitas horas de leitura nas férias. Vou procurar, antes de mais, uma voz que se destaque sem ser forçada, a voz de um autor que escreveu primeiro e se preocupou com o resto depois.
Publicar é importante, mas é o fim do processo, não o início. Até lá, escreve para ti, aproveita o fluxo criativo e o prazer da construção livre. A publicação chegará na altura certa.
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Abraço,
Lara



Olá Lara! Que engraçado! Eu não penso na publicação, penso quando estou dedicada ao meu diário, em descarregar o que ocupa a minha mente, mas quando estou a montar o meus manuscritos, confesso que tenho muita curiosidade com o resultado final.
Cara Lara, creio teres toda a razão, a nossa criatividade é condicionada, tolhida; eu gostaria de ser publicada, mas a minha autoficção está talvez fora de moda, começa por não ter palavrões. É reflexiva, muitos fluxos de consciência, enfim tudo aquilo que não é comercial, mas não sei escrever de outro modo, nem me interessa tentar.
Óptima lição Lara.
Muito obrigada.
Carla