A lógica que não é racional em escrita de ficção
Ontem fechei a primeira fase de desenvolvimento do meu segundo romance. O primeiro, como já tornei público, está a encarquilhar na gaveta.
Não abri espumante nem me ofereci um fim de semana na linha d’água. O verdadeiro labor começa agora: aprofundamento, corte, afinação e aprimoramento da prosa. Será um trabalho de ourives, com os óculos na pontinha do nariz e algum desespero à mistura. Mas esta fase terminou, portanto, dei um passo em frente.
Ao ler o conjunto, redescobri a teia que se formou mais ou menos a meio do que eu assumira ser um exercício de escrita. Uma mulher e um urso atravessam capítulos sem que, de forma consciente, o tenha planeado; um gira-gira roda em cenas que escrevi com meses de intervalo. Além disso, descobri uma obsessão por olhos. Não minha, do próprio livro.
Uma das descobertas mais perturbadoras e belas do processo é perceber o que o subconsciente trama em segundo plano. Se nos entregarmos sem inseguranças, o consciente e o subconsciente tecem fios invisíveis à primeira vista. O autor decide, com consciência, o ponto de vista, uma cena, um corte, e o subconsciente prepara, em segundo plano, algo que mais tarde nos espanta.
E é isto que me tem ocupado esta semana; também é o que observo em alguns manuscritos que acompanho. Há neles uma lógica não racional, mas que pode ser poderosíssima, quando o que parecia disperso estava, afinal, a construir-se numa camada mais profunda da nossa mente. Reconhecê-lo muda a reescrita.
E quando a mente consciente entra em pânico? Nas mentorias tenho visto o manuscrito sofrer de duas formas: na cena que explica o que devia mostrar, com medo de que o leitor não perceba; no capítulo em que demasiado acontece em pouco espaço, porque o autor teme que o leitor abandone a leitura por tédio.
Quando identifico um destes problemas, a primeira coisa que tento entender é o que o autor está a tentar proteger.
Estou a ler “Um Sopro de Vida”, de Clarice Lispector, simultaneamente um romance, um diário e uma meditação sobre o ato de criar. A epígrafe «Quero escrever movimento puro» descreve melhor do que qualquer teoria o estado e o tremor provocados pela ficção psicológica. Neste livro, Clarice habita duas personagens que são espelho e contraste.
Em breve começarei a receber os originais concorrentes ao Prémio Literário Henrique Lamas. Estou expectante. Até lá, continuo a trabalhar na organização da imersão “Escrita de Ficção de A a Z”, que acontece no dia 5 de setembro. As vagas estão a desaparecer. Garante a tua aqui.



